sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Masturbação Mental - Dia 2 - O garfo, a faca e a colher


Estávamos eu e ela àquela casa. Entramos na surdina, em meio a uma escuridão imensa. Eu dei um passo, ela deu dois. Queria estar sempre a minha frente. Mas não naquele dia, não naquela casa onde havia colheres pelo chão, garfos pelas paredes e facas pelo teto.
As colheres marcavam a posição e os garfos marcavam o tempo. Mas ainda não sabíamos disso. Ela andava passeando como se nada fosse acontecer, eu logo atrás dela temia pelo pior. Senti um arrepio estranho atrás da nuca. Uma voz que me dizia: Tome cuidado. Não achei nenhuma garrafa dessa bebida estranha por perto. Então segui mesmo assim, mesmo sem tomar cuidado.
A pessoa que estava comigo, hora era uma mulher qualquer e hora era a minha mãe. Mas era minha mãe apenas no final, apenas quando saímos daquele castelo enorme, que por fora parecia apenas um cômodo.
Ainda lá dentro, a mulher estranha resolveu botar seus passos a pegadiarem pelo corredor à direita. Eu sabia que deveríamos ir pela esquerda. O garfo contou: 1, 2. A colher se virou e apontou para ela. Todas as colheres apontavam em sua direção. FFFFFFF! Uma faca completamente afiada, grande e a princípio de prata, não caiu, apesar de ter caído, parecia mais que houvera sido arremessada pelo teto. Direto ao peito dela. FFFFFFF! Como se infligisse o limite de seu coração. Sangue. Sangue, sangue e escuridão. Vermelho e preto. Pensei. Cores que muito combinam. Segui pelo corredor esquerdo como se a morte dela não me pertencesse nem por um instante.
Agora aquele castelo era uma casa. E era também uma escola, onde crianças estudavam em uma sala de vidro a direita de por onde eu andava. Era como se elas não pudessem me ver. Havia um professor estranho à frente delas. Óculos de aro preto e redondo. Cabelo completamente branco. As crianças não desviavam a atenção. Pude ver um relógio com ponteiros de garfo. Estava entendendo, mas ainda não tinha entendido. Eu não pude evitar. O professor se ausentou e ao sair, olhou fundo em meus olhos. Fixei-me à grande parede de vidro. O garfo contou: 1,2. As colheres que estavam ao meu redor se viraram e apontaram todas para a sala das crianças. As facas afiadas no teto. Um total de 36. FFFFFFF! Caíram todas de uma vez, na cabeça de cada criança. Como se acertassem o ponto certo. Vidas se foram em 1,2. Fiquei estático. Vermelho e branco. Vermelho. Crianças mortas. Cadernos sujos de sangue. Quanto desperdício de material. Pensei.
Sai daquela casa de mãos dadas com minha mãe. Andamos pela floresta escura, tentando fugir da direção das colheres. Garfos nas árvores contaram: 1,2. Colheres na terra apontavam em nossa direção. Segurei forte a mão de minha mãe e pude ouvir do céu cair. FFFFFFFF!

2 comentários:

  1. Nossa, acho que foi o teu texto mais simbolicamente pesado que eu já li. Muito bom! Me lembra a escrita daqueles clássicos escritores de contos.

    ResponderExcluir
  2. eu nunca escrevi algo tão pesado assim e nunca fui de escrever contos. não sei oq deu em mim. mas agradeço por ter dado, pq eh bom neh!?

    vai ver em incorporei algum desses clássicos escritores, UHSAUHSUAHSA'

    - jé

    ResponderExcluir

Somos gratos pelo seu comentário, comente sempre, isso nos ajuda a saber nosso progresso na escrita.

Obrigado