sábado, 23 de fevereiro de 2013

Masturbação Mental - Dia 3 - A pessoa que somos quando não somos a pessoa que somos


Ela se sentia diferente. Com vontade de pegar a tesoura e riscar todo seu corpo. Sentia-se triste, suja. Diziam que tudo era culpa do vento. Vento que passava e levava o seu amor, a sua dor. Diziam para ela parar e sentir a batida de seu coração. Ela parava. Mas não sentia nada. Concordava que era culpa do vento. Maldito vento! Dizia ela. Só vejo levarem o meu amor. Dor? O que é isso? Melhor do que eu ninguém sabe.
Ela queria ser um rato e viver em Marte. Queria ser um Rato de Marte com uma porção de queijos. Com uma porção de amor.
Não se entendia muito bem. Entendia bem melhor os outros. Achava que fórmulas já não serviam mais pra nada. Preferia os copos meio vazios e os corpos cheios por completo. Pedia trezentas gramas de Mortandela e não se importava. Sentava mesmo era de pernas abertas. Limpava a gordura nas calças.
Qual motivo teria os céus para escolhe-la? Era pequena, magra, indisposta. Acordava tarde todos os dias. E se pudesse optar, não acordaria nunca mais. Talvez tenha sido isso. Ela já não tinha vontade de mais nada. Alguém lá em cima deve ter a ouvido chorar. Ouviu seus pedidos noturnos. Ela ganhou um poder.
Antes diziam o que fosse, ela ouvia. Xingamentos, maus tratos. Batiam-lhe, puxavam-lhe os cabelos. Suas canelas finas eram cheias de rouxilhões. Ela os chamava de "meus pequenos rouxinóis". Era carinhosa, tinha amor pra dar e emprestar. Jamais o venderia.
Aceitava socos, tapas. Mas por qual motivo ela apanhava? O que tinha de errado?
Hoje ela tem esse tal "poder". Pode andar por ai sem que ninguém a veja. Visita amigos antigos que a protegiam dos males. Visita professores que lhe fizeram bem. Passeia todo dia pelo centro antigo da cidade. Continua a aprender com as falas alheias. Vai a praia, faz castelos de água, de gratidão. Voa sobre casas. Vigia amores antigos, os protege. Deu até asas a alguns deles. A um.
Facadas, tiros, assalto, estupro, casa de tijolos, quarto, estrangulamento. Hoje em dia ela é bem mais feliz.

Um comentário:

Somos gratos pelo seu comentário, comente sempre, isso nos ajuda a saber nosso progresso na escrita.

Obrigado